João Uchoa usa as experiências vividas durante seus muitos anos no mundo da lei para escrever seus contos. Conta casos de violência com muita realidade e crueza, chegando às vezes a chocar e repugnar. Sua escrita é direta mas por vezes não se entende o que diz por fazer largo uso de jargões e expressões exclusivas aos advogados.
Os contos deste livro abordam um mesmo assunto, os equívocos causados pela justiça.
Os contos analisados têm em comum, além disso, o fato de mostrarem os abusos de poder por parte da justiça; inocentes sendo acusados de crimes brutais sem poderem se defender. Toda uma sorte de torturas físicas e psicológicas sofridas.
Mas apesar de terem tanto em comum pode-se ver claramente que não são iguais. Enquanto no conto 1 o réu aceita a autoria das acusações, sejam elas quais forem, no conto 5 o réu refuta as suas e no 6 são dois réus, um pobre pai que perdeu o filho condenado pois quis se vingar; o outro um assassino com poderes e conhecimentos que sai livre. Os contos mostram formas diferentes de lidar com culpa e inocência, conhecimento e ignorância, estar dentro ou fora da lei.
Nos contos a justiça se preocupa em ouvir os acusados, porém a abordagem é diferente. No primeiro conto o juiz questiona mas o réu não quer nem mesmo tentar se defender, mas demonstra uma consciência de sua inocência. No conto 5 o juiz pergunta qual a versão do réu, apesar deste já ter confessado na delegacia, o réu nega a autoria e alega tortura física por parte dos policiais, no entanto os policiais o desmentem, não ficando claro no fim quem afinal teve o apoio do Juiz. Já no conto 6 um dos réus não teve direito a se defender, enquanto o outro, o que realmente teve culpa, teve todas as atenções ao passar de réu para vítima em uma fração de segundos.
No conto 6 o síndico se sente injustiçado, inconformado com o cumprimento da lei, a seu ver está sendo vítima de uma incoerência coletiva. No conto 1 o réu sabe que seu julgamento não dará em nada e, com ares de Jesus Cristo, aceita ser o cordeiro da imolação. No conto 5 o réu alega inocência mas sente no seu intimo que não escapará dos olhos cegos da justiça. Cegos não às diferenças e sim à verdade.
Pensando bem não se sabe se os equívocos a que se refere Uchoa são os da lei ou os do ser humano que a corrompe.
Essa análise critico-comparativa foi escrita por mim para um trabalho da faculdade.
sábado, 28 de junho de 2008
O equívoco – Contos Bandidos. (Contos 1, 5 e 6)
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Teoria do Medalhão
“O sábio que disse: "a gravidade é um mistério do corpo", definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida.”
Esse conto de Machado de Assis é extremamente irônico, e faz uma dura crítica à sociedade de sua época, fim do século XIX. Era uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, muito preocupada em parecer superior mesmo sendo mesquinha. Muito parecida com a sociedade que vemos hoje.
As personagens do conto, pai e filho, dão um tom ameno e familiar ao texto, o que o torna mais agradável. Machado escreveu de forma tão suave que quem lê o trecho: “Tu, meu filho, se não me engano, parece dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício.” não percebe que ele insulta o filho, apesar de estar claro.
A sua real mensagem está implícita em cada palavra, em cada vírgula e ponto final. Porém, tal como em “O Príncipe” de Machiavelli, poucos devem tê-lo entendido em sua época.
Para quem leu o citado livro florentino não é difícil entender a intenção do autor brasileiro. Em “Teoria do Medalhão” o pai incumbe o filho de realizar seu sonho de mocidade, ser Medalhão.
O Medalhão seria aquele cara que freqüenta todas as rodas, chama a atenção onde chega, conhece todo mundo e tem boa conversa apesar de não ter nada a dizer. São exemplos atuais a Socialite Narcisa Tamborindeguy e o apresentador Amaury Jr.
Machado de Assis descreve um ser bajulador, de palavras vazias. Não é uma profissão que um pai deseje a um filho. Não são características que se deva orgulhar. E aí está a chave para detectar a crítica.
Postado por Kathariny Rios às 14:01 2 comentários